Alta Sensibilidade no Mundo do Trabalho

Umas das melhores analogias para entender as PAS (Pessoas Altamente Sensíveis) no ambiente de trabalho é o canário na mina de carvão: Antigamente os trabalhadores nas minas de carvão corriam alto risco de intoxicação por monóxido de carbono e por isso levavam canários para as minas, estes pássaros são extremamente sensíveis a presença do gás. Quando os canários desmaiavam, era sinal que o gás estava presente e hora de evacuar a mina.
Não é fácil ser aquele que percebe antes que todos quando há algo errado ou uma oportunidade de melhoria, isso é tanto uma dádiva, como um desafio.
As PAS capturam mais informações, detalhes sutis do ambiente ao seu redor e processam informações muito profundamente, porém é um desafio explicar para as outras pessoas aquilo que vemos com tanta certeza e clareza e outros não. Muitas vezes somos taxados de exagerados, chatos ou muito sensíveis e constantemente ignorados, temos que sustentar este desconforto de conviver com algo errado até que o problema se torne grande demais e mais difícil de ser corrigido. Não é fácil ignorar algo que grita dentro de nós pedindo atenção.
As mesmas características fazem nossos pontos fortes, as PAS enxergam além do óbvio, o quadro maior e ao mesmo tempo os detalhes, somos pessoas criativas, empáticas, intuitivas, solucionadores de problemas, confiáveis, que percebem o estado emocional e se importam com as pessoas e o ambiente ao redor. Estas são qualidades que todas as organizações e times precisam.

A pesquisadora holandesa Dra Esther Bergsma realizou uma extensa pesquisa sobre a relação entre as Pessoas Altamente Sensíveis com o Trabalho, contando com a participação de 5500 pessoas em 20 países. Ela traz um dado alarmante: 75% dos entrevistados dizem que estão sofrendo de burnout ou já sofreram no passado.

Situações comuns no local de trabalho que são moderadamente estressantes para a maioria, como falar em muitas reuniões ou receber críticas, podem super estimular as PAS rapidamente. Ficamos mais exaustos após realizar tarefas do que outras pessoas, simplesmente porque nossos cérebros processam as informações de forma mais profunda. Enquanto outras pessoas podem concluir uma tarefa e seguir para outra, podemos ainda estar refletindo sobre cada detalhes, repassando conversas ou analisando os resultados e consequências.
Quando não compreendemos o traço da alta sensibilidade, nos comparamos com os outros e acreditamos que o problema está em nós, forçando um ritmo que nos faz mal.

A pesquisa indica que 40% sentem-se sobrecarregadas no trabalho diariamente. Os ambientes corporativos abertos, ruidosos, cheio de informações e interrupções constantes são um grande desafio para a sensibilidade que absorve e processa tudo profundamente, gastando muita energia com isso. Somam-se os processos caóticos, prazos apertados, cobranças e tensões emocionais que aumentam o estresse.
O trabalho remoto pode ser uma solução para muitas PAS, com um controle maior do ambiente, porém sem o devido cuidado, sua energia pode ser tomada pelos estímulos da casa e atenção com a família, assim como as notificações e necessidade de responder imediatamente a mensagens, e-mails e sobrecarga com reuniões online ininterruptas.

Uma outra característica comum que aumenta o desgaste, é que as PAS buscam a harmonia e a melhor solução para o grupo social. Isso pode levar ao desejo de agradar a todos, estabelecendo padrões muito elevados para si mesmo e para o seu trabalho, com uma dificuldade enorme em dizer não, acumulando tarefas, ajudando a todos e muitas vezes sem ter o devido reconhecimento: 62% dos participantes sentem que dão mais do que recebem do seu empregador e 58% dizem que entregam mais trabalho do que os outros percebem.

A maioria das empresas valoriza e premia a competição, as conquistas individuais, o trabalho de quem se mostra mais, fala mais alto e está sempre disponível.  As PAS não se encaixam neste ambiente, sua natureza é colaborativa e exige equilíbrio, porém muitas vezes se veem forçadas a ser algo que não são. Me recordo de um amigo que dizia, que sempre ao final do dia, sentia que sua alma fora arrancada de seu corpo. Quem é que pode ser feliz e realizar um bom trabalho sendo separado da sua alma?

Do Burnout para a Gestão de Energia

Muitas PAS cresceram acreditando que sua sensibilidade é uma fraqueza que as torna menos competitivas e por isso tentam a todo custo se adaptar, tendo muita dificuldade em aceitar quem são, e expor-se ao mundo expressando as suas necessidades. O caminho do sucesso para uma PAS é justamente quando ela aceita e honra de forma plena a sua sensibilidade, pois é ali que reside, a sua alma, sua essência e a sua maior força.
A energia da pessoa altamente sensível tem um ritmo próprio e honrar esse ritmo não é opcional, é essencial, portanto, cabe a cada indivíduo criar uma rotina saudável com pausas para recuperação, períodos de desconexão e principalmente ampliando a consciência sobre a sua real responsabilidade sobre as outras pessoas e o valor único de suas contribuições.
O ambiente, as relações e os processos de trabalho ao seu redor podem ser exigentes demais ou estarem desalinhados. Aprender a comunicar as suas necessidades é fundamental, seu feedback é importante e pode beneficiar a todos. É importante trazer a conscientização sobre regulação emocional, gestão de energia, carga de trabalho e estresse para as empresas, muitas pessoas podem estar sofrendo com isso em maior ou menor grau e uma conversa aberta e transparente promove a empatia.

Como criar um bom ambiente de trabalho para Pessoas Altamente Sensíveis?

É comprovado que existe uma relação significativa entre o bem-estar dos funcionários e o desempenho no local de trabalho. Isto é amplificado com o traço da alta sensibilidade. Da mesma forma que os funcionários sensíveis podem ser os primeiros a cair quando o local de trabalho é tóxico, eles também serão os primeiros a prosperar quando o ambiente for saudável.
Criando as condições certas as organizações contarão com um conjunto importante de habilidades para enfrentar os desafios desta era. Funcionários altamente sensíveis trazem qualidades extraordinárias como criatividade, empatia, intuição, escuta profunda, pensamento crítico e trazem contribuições únicas para o ambiente de trabalho.

Os principais componentes que um ambiente de trabalho deve oferecer são:

Transparência e comunicação clara: As PAS percebem sinais sutis, são intuitivas, sensíveis à manipulação de informações, desonestidade e fofocas. Isso as afeta muito. A transparência evita ou deixa pouco espaço para isso. A comunicação clara evita mal-entendidos e deve incluir expectativas claras quanto à frequência de comunicação e tempo de resposta em cada um dos canais de comunicação

Segurança Psicológica: Respeito, confiança, abertura para poder ser autênticos e expressar emoções são fundamentais. Um ambiente seguro ajuda a relaxar e ter um melhor desempenho. Para as PAS poder expressar de forma plena a sua sensibilidade, e expor sua visão, suas emoções e necessidades sem medo de julgamento são as principais condições para o seu florescimento.

Autonomia e Flexibilidade:  PAS precisam de autonomia para fazer o trabalho do seu modo, e quando tem isso, o fazem com excelência e com energia.
Para as PAS, a recuperação é tão importante quanto o esforço. Elas precisam de flexibilidade quanto aos seus horários, organização da agenda e local de trabalho.

Focos nos Resultados: As PAS São muito conscientes da entrega que precisam fazer e da interdependência de seu trabalho com o de outras áreas, sem a necessidade de serem cobrados, e gerenciados de perto, o que gera superestimulação e tem o efeito contrário.

Propósito e Significado: As PAS querem que seu trabalho tenha propósito. Tarefas que parecem sem sentido ou repetitivas podem ser desanimadoras. Por outro lado, quando o trabalho está alinhado com seus valores e contribui para algo maior, sentem-se energizadas e motivadas.

Líderes Altamente Sensíveis

A figura do líder foi muito tempo foi associada com aquele que exerce poder sobre os outros, se impõe por falar mais alto, seu poder de persuasão ou carisma, o que pode nos levar a acreditar que a sensibilidade é um obstáculo para a liderança.
O mundo está mudando, o antigo modelo de liderança hierárquico, emocionalmente distante e focado na entrega através do esgotamento profissional está ruindo.
Em seu lugar está surgindo um novo modelo baseado em inteligência emocional, vulnerabilidade, poder distribuído, comunicação autêntica e integridade, e que considere a saúde e o bem-estar tão importantes como qualquer outra métrica de sucesso.
Se antes as emoções precisavam ficar fora dos negócios, estudos recentes mostram que as emoção está no centro da sabedoria, da motivação e das decisões, líderes sensíveis permitem que emoções e sentimentos estejam presentes como parte integral do que é ser humano.
Guiados por valores éticos profundos, as Pessoas Altamente Sensíveis tem os atributos para este novo tipo de liderança que coloca o senso de propósito acima do ganho pessoal, é inclusiva, acolhedora, escuta e se conecta, criando ambientes que curam e permitem que as pessoas prosperem sendo quem são.

Conclusão

O trabalho é um dos principais desafios para as Pessoas Altamente Sensíveis que sofrem com a dificuldade para se encaixar e o estresse crônico que leva ao esgotamento. Muitas desistem ou adoecem. Com isso perdem todos, principalmente as empresas que deixam de contar com um conjunto único de habilidades que somente as pessoas mais sensíveis podem trazer ao ambiente de trabalho.
As PAS são os sensores que percebem o que há de errado e as bússolas que apontam a direção para um futuro possível mais inclusivo e harmonioso. As organizações e os indivíduos precisam estar unidos nessa missão para preservar as pessoas sensíveis do esgotamento e permitir que seu trabalho seja a expressão da sua sensibilidade em todas as dimensões e tornarem-se os líderes e agentes de transformação tão necessários neste momento crítico de nossa história como humanidade.

Fábio Augusto Cunha
Artigo publicado originalmente na edição de Março/26 da revista Coaching Brasil

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