Confesso experimentar sentimentos ambíguos ao escrever sobre a ciência que envolve o traço das Pessoas Altamente Sensíveis. Por um lado, considero extremamente importante a validação científica e a ampliação das pesquisas, principalmente para que as pessoas tenham o suporte adequado com o pleno conhecimento do traço pelos profissionais da psicologia e da medicina. Porém também acompanho muitas pessoas que buscam apenas um diagnóstico, uma validação externa e reconhecida pela sociedade que comprove que elas tem algumas características diferentes da maioria da sociedade.
Este texto que é baseado em um artigo recentemente publicado pela Professora Corina Greven busca atender àquelas pessoas que escutam falar sobre o traço da Alta Sensibilidade e gostariam de se aprofundar mais sobre o que a ciência já descobriu e comprovou.
Na minha perspectiva eu considero que a descoberta da Alta Sensibilidade, muito além de qualquer diagnóstico é uma aventura de autoconhecimento, cada ser humano é único, um universo imenso de possibilidades e a alta sensibilidade é uma parte de quem você é, uma parte essencial, porém não é uma sigla que vai definir quem você seja.
Você já tem uma intuição dentro de você que valida que a forma que você percebe e processa o mundo é real e sempre existiu dentro de você. Use o conhecimento para abrir as portas para a aceitação da sua sensibilidade e que você possa expressá-la em sua vida, protegendo o seu ser da sobrecarga.
O que as pesquisas recentes revelam sobre o traço da Alta Sensibilidade
Durante muito tempo, a sensibilidade dos seres humanos foi compreendida principalmente como uma característica emocional: algumas pessoas pareceriam sentir mais, emocionar-se mais facilmente ou ser mais afetadas pelo que acontece ao seu redor. Para se proteger se isolavam e muitos rótulos foram associados a essas pessoas como neuróticos, tímidos entre outros.
Nas últimas décadas, porém, a pesquisa científica começou a construir uma compreensão mais ampla desse fenômeno.
Em 1997, Elaine Aron e Arthur Aron identificaram e cunharam o nome científico Sensibilidade de Processamento Sensorial (SPS) como o traço definidor de Pessoas Altamente Sensíveis. Em sua definição, o processamento sensorial não se refere aos órgãos dos sentidos, mas a como a informação sensorial é transmitida e processada no cérebro. Eles identificaram que aproximadamente 20% da população apresenta maior sensibilidade a estímulos sutis, maior profundidade de processamento e maior responsividade emocional e fisiológica.
A questão central que tem guiado as pesquisas não é identificar se determinadas pessoas são mais sensíveis que outras, e sim compreender como diferentes pessoas respondem ao mundo e como essas diferenças interagem com os ambientes em que vivem.
1. Alta Sensibilidade não é um transtorno
A primeira distinção é fundamental. A Sensibilidade de Processamento Sensorial é descrita na literatura como um traço de temperamento e não como uma doença ou um diagnóstico clínico.
Sensibilidade de Processamento Sensorial é um traço inato que envolve uma sensibilidade aumentada do sistema nervoso central e um processamento cognitivo mais profundo de estímulos físicos, sociais e emocionais, é caracterizado por uma tendência a fazer uma pausa para reflexão diante de situações novas, maior sensibilidade a estímulos sutis e o envolvimento de estratégias de processamento cognitivo mais profundas para empregar ações de enfrentamento, todas impulsionadas por uma reatividade emocional elevada.
A revisão de Greven e colaboradores, publicada posteriormente em 2019, ampliou essa perspectiva ao colocar a SPS dentro de um conceito mais abrangente: a Environmental Sensitivity, ou Sensibilidade ao Ambiente. Nesse modelo, as pessoas diferem quanto ao grau em que registram, processam e respondem às influências do ambiente.
A alta sensibilidade, portanto, não significa necessariamente que algo esteja errado com a pessoa. Ela representa uma diferença na maneira como ela percebe, reage e processa ao ambiente.
2. Sensibilidade é uma questão de grau
Uma das mudanças importantes na compreensão científica da SPS é o afastamento da ideia de que existiriam apenas duas categorias: “sensível” e “não sensível”.
As evidências apontam para uma característica que se distribui ao longo de um continuum. Algumas pessoas apresentam menor sensibilidade ao ambiente; outras apresentam níveis intermediários; e um grupo apresenta níveis elevados.
Estudos utilizando diferentes métodos de análise encontraram evidências compatíveis com a existência de grupos de baixa, média e alta sensibilidade, embora a própria estrutura da característica continue sendo objeto de investigação.
O trabalho de Lionetti e colaboradores, por exemplo, encontrou evidências de diferentes níveis de sensibilidade, descritos metaforicamente como — dentes-de-leão, tulipas e orquídeas. Dentes-de-leão são flores encontradas em todos os lugares, ruas, praças, cresce até nas frestas do calçamento e resistem a todo tipo de intempérie. Já no outro extremo, as orquídeas são extremamente sensíveis ao ambiente, dependendo de condições favoráveis para se desenvolver e são mais suscetíveis a eventos externos.
Essa visão ao invés de simplesmente buscar definir, quem é sensível e quem não é, busca identificar em que grau cada pessoa é sensível às condições do ambiente.
3. O que caracteriza a Sensibilidade de Processamento Sensorial?
As pesquisas identificam um conjunto de características associadas à Alta Sensibilidade
Entre elas estão:
– maior percepção de estímulos sutis;
– processamento mais profundo das informações;
– maior responsividade emocional;
– maior sensibilidade a estímulos do ambiente;
– maior possibilidade de sobrecarga diante de ambientes e situações excessivamente estimulantes;
– maior responsividade a experiências positivas.
Um aspecto especialmente importante é que essas características não devem ser consideradas de forma isolada. A identificação do traço em um indivíduo requer a presença de todas estas características em maior ou menor grau.
É muito importante não interpretar estas características como positivas ou negativas. É um traço neutro.
Por exemplo, perceber mais detalhes não significa necessariamente “pensar demais”. Em determinados contextos, essa maior captação de informações pode favorecer percepção, aprendizagem, criatividade ou tomada de decisão. Da mesma forma, uma maior responsividade emocional pode representar tanto maior vulnerabilidade diante de experiências adversas quanto maior capacidade de ser afetado por experiências positivas.
4. Profundidade de processamento
A profundidade de processamento é um dos elementos centrais da teoria da alta sensibilidade.
A hipótese é que Pessoas Altamente Sensíveis não apenas captam muito mais estímulos, mas tendem a processá-los de maneira mais elaborada e profunda. Isso pode significar considerar diferentes aspectos de uma situação, estabelecer conexões entre informações, refletir sobre consequências e integrar experiências anteriores à situação presente.
Essa característica ajuda a compreender por que uma experiência aparentemente simples pode continuar sendo processada internamente mesmo depois que o acontecimento terminou.
Mas é importante fazer uma distinção: profundidade de processamento não significa necessariamente ruminação.
A primeira é uma característica da forma como a informação é processada; a segunda é um padrão específico de pensamento repetitivo que pode ser prejudicial. Confundir os dois conceitos pode levar a uma interpretação excessivamente negativa da sensibilidade.
5. O cérebro altamente sensível
Uma das áreas mais interessantes da pesquisa é a investigação dos correlatos neurais da SPS. Estudos de neuroimagem encontraram diferenças associadas à sensibilidade em regiões envolvidas no processamento perceptual, emocional e cognitivo.
A revisão de Greven e colaboradores reúne evidências sugerindo que a SPS está associada a maior processamento de informações no cérebro, embora os mecanismos neurobiológicos ainda não estejam completamente esclarecidos. Isso é importante porque evita uma explicação simplista do tipo “o cérebro da pessoa sensível funciona melhor” ou “funciona pior”.
A evidência disponível sugere diferenças na maneira como informações relevantes são registradas e processadas, mas ainda existe muito a investigar sobre os mecanismos responsáveis por essas diferenças.
Uma revisão específica sobre o chamado Cérebro Altamente Sensível diz que não é possível identificar um único gene de alta sensibilidade, pois sempre existe uma interação entre vários genes e o ambiente. O que está claro é que o genótipo s/s do gene 5-HTTLPR está intimamente associado à alta sensibilidade e parece haver uma conexão com a ocorrência da variante de 7 repetições do gene DRD4.
Isso quer dizer que a sensibilidade ao ambiente possui componentes neurais e genéticos, mas ressaltou que sua manifestação depende da interação entre predisposição individual e contexto do ambiente, principalmente o da primeira infância.
6. Uma característica parcialmente herdável
A pesquisa também sugere que a SPS possui um componente hereditário. Greven e colaboradores destacam evidências de que a sensibilidade é moderadamente herdável.
Isso não significa necessariamente que exista um “gene da alta sensibilidade”. Características complexas como essa normalmente resultam da interação de múltiplos fatores genéticos e ambientais.
Além disso, hereditariedade não significa destino. Uma predisposição biológica pode influenciar a maneira como uma pessoa responde ao ambiente sem determinar antecipadamente o resultado dessa interação.
7. A grande descoberta: não é apenas vulnerabilidade
Talvez a contribuição científica mais importante para a compreensão contemporânea da alta sensibilidade esteja aqui. Durante muito tempo, a sensibilidade foi interpretada como maior vulnerabilidade.
mais sensibilidade → maior risco diante de ambientes negativos.
Esta visão associa a sensibilidade com uma fraqueza e leva muitas pessoas a desejarem ser “menos sensíveis”
Mas a pesquisa sobre a Sensibilidade ao Ambiente e a Suscetibilidade Diferencial propõe uma perspectiva mais ampla: Pessoas mais sensíveis podem ser mais afetadas por experiências negativas mas também podem ser mais beneficiadas por experiências positivas.
Em outras palavras:
ambiente adverso → maior impacto negativo | ambiente favorável → maior impacto positivo
Essa característica é chamada de susceptibilidade diferencial.
A revisão de Greven et al. conclui que a SPS está associada a maior sensibilidade tanto a ambientes negativos quanto positivos. A interação com experiências negativas pode aumentar o risco de problemas relacionados ao estresse, enquanto experiências positivas e intervenções de apoio podem produzir benefícios maiores e ter melhores resultados quando comparados com pessoas que não possuem o traço.
Essa perspectiva muda profundamente a maneira como podemos falar sobre alta sensibilidade. A pessoa altamente sensível não é simplesmente alguém que “sofre mais”. Ela pode ser alguém que responde mais profundamente ao contexto.
8. O ambiente importa
Essa ideia tem uma consequência importante. Se a sensibilidade aumenta a responsividade ao ambiente, então não podemos compreender completamente uma pessoa altamente sensível sem compreender o ambiente em que ela está inserida.
Uma mesma característica pode produzir resultados muito diferentes dependendo das condições. Um ambiente marcado por:
– excesso de estímulos;
– pressão constante;
– baixa autonomia;
– conflitos;
– insegurança;
– relações pouco confiáveis;
– ausência de recuperação;
podem aumentar a probabilidade de sobrecarga.
Por outro lado, ambientes caracterizados por:
– segurança;
– relações de confiança;
– autonomia;
– suporte;
– significado;
– possibilidade de recuperação;
– estímulos adequados;
podem favorecer resultados positivos.
Pesquisas sobre Sensibilidade ao Ambiente em crianças já encontraram, por exemplo, evidências de que a sensibilidade pode moderar os efeitos da qualidade das experiências de cuidado.
Isso significa que compreender a alta sensibilidade exige olhar não apenas para quem é a pessoa, mas também para o mundo ao qual ela está respondendo.
Parte fundamental do autocuidado é o gerenciamento do ambiente e seus estímulos.
9. Alta Sensibilidade não é sinônimo de introversão
Algumas pesquisas indicam que a maioria das PAS sejam introvertidas e é comum esta associação, porém o artigo reforça a importância da diferenciação entre SPS e outros traços de personalidade.
A alta sensibilidade apresenta relações com características como introversão e neuroticismo, mas não pode ser reduzida a nenhuma delas. A revisão de Greven et al. destaca justamente a necessidade de diferenciar SPS de outros traços de temperamento e personalidade:
– Uma pessoa altamente sensível pode ser introvertida ou extrovertida.
– Pode gostar de estar sozinha ou gostar intensamente de interação social.
– Pode apresentar maior estabilidade emocional ou enfrentar dificuldades emocionais.
A sensibilidade não determina uma personalidade completa.
Ela é uma dimensão específica da maneira como o indivíduo se relaciona com o ambiente.
10. A dimensão estética e a experiência positiva
Existe ainda uma dimensão da sensibilidade que frequentemente desaparece quando o fenômeno é discutido apenas a partir da vulnerabilidade e do sofrimento.
A sensibilidade também pode estar relacionada à experiência estética: música, arte, natureza, beleza, espiritualidade e experiências emocionalmente significativas.
Isso é importante porque ajuda a recuperar uma dimensão essencial da experiência de pessoas altamente sensíveis:
a capacidade de ser profundamente tocado pelo mundo.
A ciência ainda precisa compreender melhor essa dimensão, mas pesquisas já exploraram relações entre SPS e experiências positivas, incluindo respostas a intervenções e aspectos associados à experiência estética.
Assim, a mesma abertura que pode tornar uma pessoa mais vulnerável ao excesso também pode permitir uma experiência mais rica e profunda diante daquilo que é significativo.
A escritora Susan Cain traz a ideia que as Pessoas Altamente Sensíveis experimentam uma amplitude maior de sentimentos podendo experimentar ao mesmo tempo alegria e melancolia ao ouvir uma música ou contemplar uma cena na natureza.
11. O que a ciência ainda não sabe
É igualmente importante não transformar a pesquisa sobre SPS em algo mais conclusivo do que ela realmente é.
A própria revisão de Greven e colaboradores foi construída como uma agenda de pesquisa.
Entre as principais lacunas identificadas estão:
– desenvolver medidas mais objetivas de SPS;
– compreender melhor seus mecanismos neurobiológicos;
– esclarecer sua relação com outros traços de personalidade;
– investigar seus mecanismos genéticos;
– estudar a interação entre sensibilidade e ambiente ao longo do desenvolvimento;
– diferenciar SPS de condições clínicas e outros fenômenos relacionados à sensibilidade;
– compreender melhor os efeitos positivos da sensibilidade;
– desenvolver intervenções baseadas em evidências.
Portanto, existe uma base científica crescente, mas o campo ainda está em desenvolvimento.
Isso é particularmente importante quando falamos publicamente sobre alta sensibilidade e diferenciar o que é característica do traço e de nossa experiência individual.
12. Será que sou uma Pessoa Altamente Sensível
Atualmente existe um questionário de autoavaliação que foi criado pela Dra Elaine Aron e revisado ano passado em uma nova versão. Este é um dos pontos de maior foco na pesquisa, estabelecer melhores critérios para identificação.
Baseado na última versão publicada e em um novo questionário desenvolvido pelas pesquisadoras Véronique De Gucht e Dion H.A Woestenburg eu criei essa ferramenta para autoavaliação.
Você pode acessar através do link: https://mapadasensibilidade.futurisense.com.br
Conclusão
A primeira conclusão que a pesquisa revela é que a Alta Sensibilidade é real, não é um movimento nova era de pessoas que se acham especiais. Existe uma corpo academico estruturado trabalho nesta pesquisa a décadas e hoje nos permite ter uma imagem mais ampla e assertiva da alta sensibilidade e sua complexidade.
A SPS pode ser compreendida como uma maior responsividade às experiências ambientais, associada a diferenças na percepção, processamento e resposta aos estímulos.
E talvez a consequência mais importante seja esta:
quanto mais sensível uma pessoa é ao ambiente, mais importante se torna compreender a relação entre essa pessoa e o ambiente.
Isso desloca a conversa da adaptação unilateral da pessoa para uma investigação mais ampla sobre os contextos em que vivemos, nos relacionamos e trabalhamos:
– Que ambientes nos permitem florescer?
– Que ambientes nos fazem adoecer?
-Que relações ampliam nossas possibilidades?
-Que formas de organização respeitam diferentes maneiras de perceber, pensar e sentir?
Essas perguntas ultrapassam a Alta Sensibilidade e nos levam a uma questão maior:
Como criar ambientes humanos nos quais diferentes formas de estar e experienciar o mundo possam não apenas sobreviver, mas florescer?
Referências
Aron, E. N., & Aron, A. (1997). Sensory-processing sensitivity and its relation to introversion and emotionality. Journal of Personality and Social Psychology, 73(2), 345–368.
Aron, E. N., Aron, A., & Jagiellowicz, J. (2012). Sensory processing sensitivity: A review in the light of the evolution of biological responsivity. Personality and Social Psychology Review, 16(3), 262–282. https://doi.org/10.1177/1088868311434213
Greven, C. U., Lionetti, F., Booth, C., Aron, E. N., Fox, E., Schendan, H. E., Pluess, M., Bruining, H., Acevedo, B., Bijttebier, P., & Homberg, J. R. (2019). Sensory Processing Sensitivity in the context of Environmental Sensitivity: A critical review and development of research agenda. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 98, 287–305. https://doi.org/10.1016/j.neubiorev.2019.01.009
Homberg, J. R., Schubert, D., Asan, E., & Aron, E. N. (2016). Sensory processing sensitivity and serotonin gene variance: Insights into mechanisms shaping environmental sensitivity. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 71, 472–483. https://doi.org/10.1016/j.neubiorev.2016.09.029
Lionetti, F., Aron, A., Aron, E. N., Burns, G. L., Jagiellowicz, J., & Pluess, M. (2018). Dandelions, tulips and orchids: Evidence for the existence of low-sensitive, medium-sensitive and high-sensitive individuals. Translational Psychiatry, 8, 24. https://doi.org/10.1038/s41398-017-0090-6
Pluess, M., Assary, E., Lionetti, F., Lester, K. J., Krapohl, E., Aron, E. N., & Aron, A. (2018). Environmental sensitivity in children: Development of the Highly Sensitive Child Scale and identification of sensitivity groups. Developmental Psychology, 54(1), 51–70. https://doi.org/10.1037/dev0000406
Principal Fonte
Greven, C. U. et al. (2018). Sensory Processing Sensitivity in the context of Environmental Sensitivity: a critical review and development of research agenda. Preprint, 10 September 2018, doi:10.20944/preprints201809.0149.v1. O texto posteriormente foi publicado, em versão revisada, em Neuroscience & Biobehavioral Reviews (2019).